Nem de longe a confortável casa de três andares, que está em fase final de acabamento, lembra o barracão dos tempos difíceis em que a dona-de-casa Vera Lúcia Silva, de 37 anos, vivia com os dois filhos na época em que o então marido, o pedreiro Célio Goulard da Silva, de 35, morreu em um acidente de carro na Flórida. A casa está sendo erguida no lote da família, onde ficava o antigo barracão, no Centro de Itanhomi, cidade no Vale do Rio Doce, a 360 quilômetros de Belo Horizonte.
O recurso para a construção veio de uma indenização que Vera Lúcia ganhou dois anos depois do acidente. “Quando meu marido morreu, fiquei sem chão. Passei do sonho de que a nossa vida ficaria melhor com os dólares enviados dos EUA, ao pesadelo de ter que cuidar de dois filhos que, na época, tinham 10 e 15 anos, com uma renda de R$ 180. No barracão, chovia mais dentro do que do lado de fora, de tanta goteira”, disse ela, que teve de quitar uma dívida de U$ 14 mil com os agenciadores que levaram, de forma ilegal, o pedreiro para os EUA, usando como rota alternativa o deserto do México.
O marido de Vera Lúcia morreu quatro dias depois de chegar à América. Ele seguia para a cidade de Jacksomville, onde traba-lharia na construção civil. Com o dinheiro que planejava ganhar, Célio sonhava em construir uma casa melhor para a família e garantir os estudos dos filhos. A dona-de -casa prefere não revelar a quantia que ga-nhou com a indenização, mas disse que será suficiente para terminar a casa e comprar móveis novos. “Quando ele morreu, fiquei totalmente desamparada. Se não fosse esse dinheiro, não sei o que seria da minha vida hoje”, contou.
Os casos de indenizações a brasileiros que sofrem acidentes graves ou fatais nos Estados Unidos vêm crescendo na região. Somente, no ano passado, um escritório de advogados em New York conseguiu $150 milhões em indenizações, sendo que cerca de 20% do montante foram para brasileiros. Na região de Valadares foram pagos aproximadamente US$ 15 milhões, o equivalente a R$ 33 milhões.
“Esses números poderiam ser bem maiores, mas muitos brasileiros que vivem nos EUA não sabem que têm direito a indenização por acidentes de trabalho. Outros até sabem, mas têm medo de acionar judicialmente a empresa, o estado ou o governo por medo de serem deportados, porque estão ilegais no país”, disse o valadarense Ailton de Souza que, há cinco anos, foi contratado pelo escritório de advocacia em New York para divulgar entre as comunidades brasileiras que vivem em território americano, os direitos aos benefícios. Segundo ele, independentemente do estado legal no país, todos os brasileiros trabalhadores têm direito a indenizações em caso de acidentes nos EUA.
Ele explica que cada caso é um caso, e passa por análise. “É feito todo um trabalho para apurar as circunstâncias do acidente, para sabermos se podemos ou não acionar o culpado na Justiça”, acrescentou Ailton. Segundo ele, nos casos de acidente de trabalho, a maior demanda de ações é contra compa-nhias privadas.
Na semana passada, Ailton de Souza e o presidente da Associação dos Parentes e Amigos dos Emigrantes do Brasil (Aspaemig-Br), Paulinho Costa, estiveram em Guanhães para visitar uma mulher cujo marido está internado, paralítico, em um hospital de New Jersey. Segundo o advogado, tanto o homem quanto a mulher terão assistência integral durante a tramitação do processo na Justiça americana. O primeiro passo será a intermediação do escritório na tentativa de tirar o visto de entrada nos Estados Unidos para que a esposa visite o marido, e, se possível, conseguir uma permanência maior para que ela fique com ele durante sua recuperação.
O escritório tem parceria com a Aspaemig e representa os emigrantes nos EUA prestando todo tipo de assistência jurídica. Cerca de 8 mil panfletos foram confeccionados para serem distribuídos na Região do Vale do Rio Doce a familiares de parentes nos EUA, com dicas sobre questões jurídicas em caso de acidentes em território americano. “Estamos agora fazendo um trabalho de divulgação dos direitos dos emigrantes que estão nos EUA. O escritório não cobra nada para assumir o caso, só recebe se tiver êxito na questão”, afirmou Ailton.

