Mais uma tragédia de proporções cataclismáticas. Centenas de milhares de mortos, mais de um milhão de feridos, um país em ruínas...e justo em uma das nações mais pobres do mundo, estatística e comprovadamente a mais pobre e carente de todo o Hemisfério Ocidental.
Queiramos ou não, aceitemos ou não, todos nós, individualmente, temos responsabilidade –nunca “culpa”, porque é uma definição que não se aplica – sobre o destino das coletividades.
E para os que não aceitam essa verdade, há outra ainda muito mais desagradável aos ouvidos egoístas: todos nós pagamos o preço, direta ou indiretamente, pelas desgraças e desigualdades que afetam a humanidade.
O discurso isolacionista e individualista é uma grande mentira, uma grande e perversa “Brincadeira de Avestruz”, tentando enfiar a cabeça na terra na tentativa de desconhecer um problema.
Só a ação individual de cada um de nós, fará com que a triste realidade de países como o Haiti, seja paulatinamente eliminada do planeta.
Somos nós que elegemos (e tragicamente reelegemos) políticos corruptos, unicamente comprometidos com suas agendas e bolsos pessoais.
Somos nós que colocamos nos legislativos, os caras que fazem as leis que nos governam, nos destroem, mas também podem nos redimir e avançar por um mundo melhor.
Somos muitos de nós que admitimos, até achando “engraçado”, que se estivéssemos no poder, agiriamos igualzinho à maioria dos que estão aí.
É claro que a tragédia no Haiti foi muitas vezes multiplicada em função da miséria que assola o país caribenho. A inexistente estrutura urbana, fragilidade das construções e, mais que tudo, a absoluta ausência de qualquer network de defesa civil e urbana que possa lidar com catástrofes de qualquer escala, elevou fatalmente o impacto do terremoto.
Imaginem um terremoto de escala 7 em uma cidade povoada de favelas, morros e deslizamentos potenciais como o Rio de Janeiro!
Certamente o Brasil – pelo menos a gente imagina
– teria mais estrutura para enfrentar uma catástrofe assim, certo?
Será mesmo? Quem garante? Quem confia?
A falta de estrutura que ampliou dramáticamente a magnitude da tragédia haitiana não é privilégio dessa pequena ilha que abriga haitianos e dominicanos, no Caribe. Ela está presente em todas as nações do mundo onde o desenvolvimento social será sempre tratado como uma questão de menor ou nenhuma importância.
Também está melancólicamente atrelada ao atraso educacional, cultural, econômico e político.
O Haiti, que sempre foi uma nação marcada pelas piores mazelas políticas da humanidade, acima de tudo pela exploração da pobreza extrema combinadas com o desestímulo total ao surgimento de um “país sério” naquele território, sofre dez vezes mais que qualquer outra nação, justamente por estar tão atrasado em uma questão básica do desenvolvimento humano: a cidadania, seu exercício e sua fundamentação nas relações político-sociais.
O bom, porque sempre há um lado positivo em tudo o que acontece na vida, é que dessa mega tragédia de destruição, morte e dor, pode ser que surja um sentimento, uma luz no fim do túnel, que sinalize para o surgimento de algo mais parecido com uma nação que tenha futuro, num Haiti que mais parece uma nação super pobre da África, incluida no panorama ainda não totalmente desenvolvido das Américas.
Não ficar alheio à tragédia dos haitianos – e por tabela, dos milhares de brasileiros que vivem ou servem naquele país – é uma forma de abrir olhos e o coração para a tragédia maior que a cada dia se torna um câncer devorador em nosso planeta: as abismais diferenças econômicas e sociais.
Não haverá paz, harmonia, segurança e muito menos futuro promissor, num planeta onde houver a imparável tendência em ter, no topo, uma elite de ricos, poderosos e inconsequentes (sejam indivíduos, corporações ou nações) e, do outro lado, uma imensa maioria de populações subjugadas pela desigualdade
econômica, cultural e social.
A agenda social não é um luxo de conversinha intelectualoide de bar. A agenda social é uma necessidade de todos para todos.
Ou será necessário que todas as vizinhanças de “gente de bem” sejam cercadas por milhões de favelados, seja em Port-au-Prince ou Recice, em Johannesburg ou Bangkok, para que finalmente os privilegiados do mundo se dêem conta de que essa realidade será questionada, por bem ou por mal?
Olhos e coração abertos para a agenda social. O Haiti é um bom exemplo de como uma nação de miseráveis e desamparados pode se tornar um exército predador, sem ter nada a perder e pronto para dizimar os sonhos dos “privilegiados” do planeta. Cuidar de todos, como um todo, é cuidar de cada um de nós.
A atitude-ema, de enfiar a cabeça na areia, deixando o traseiro exposto ao mundo, é menos uma piada e mais uma trágica forma de manifestar a própria ignorância.

