O peso-pesado Antonio “Pezão” Silva protagonizou uma luta brilhante no sábado, dia 2, contra o holandês Alistair Overeen. Não era o lutador principal do card 156 do UFC (Ultimate Fighting Championship), mas saiu do octágono consagrado, e “de alma lavada”, como ele mesmo define. Foi sua 14ª vitória, a segunda vitória e terceira luta pelo UFC. Criado em Campina Grande, Paraíba, Pezão ganhou mais notoriedade e curte uma das melhores fases da sua carreira, desde que assinou contrato com o UFC, em 2012. De férias na Flórida, o lutador passou pela redação do GAZETA BRAZILIAN NEWS e concedeu uma rápida entrevista onde falou sobre a luta marcante e sobre o bom momento que vive. Confira o bate-papo.
GN - Você está vivendo uma das melhores fases da sua carreira, depois que começou a parceria com o Nogueira Team. Há quanto tempo vocês estão nessa parceria?
Pezão –
Tô sim, graças a Deus. Estou numa fase ótima. Já faz seis anos que a gente se conhece, eu o Minotauro. Ele é meu padrinho. A gente está treinando juntos já faz dois anos. Mas a maior parte do meu treinamento eu faço aqui, na Flórida, com o pessoal da American Top Team. Eu sempre começo a parte dos meus camping lá, no Brasil, depois retorno pra cá, porque já estou mais acostumado com os dois coaches daqui. O Katel Kubs, na parte de strike, e o Juan Jucão, na parte de jiu-jitsu. Então a gente começa o trabalho lá e termina tudo aqui.GN - A sua estatura fisica certamente ajuda muito nesse esporte...
Pezão -
A estatura sempre ajuda, mas não é tudo. Hoje, 80% da luta depende da parte fisica. Tem muito lutador que é muito técnico, mas quando cansa, acabou. Eu dou muita ênfase à parte de preparação física. Com certeza, meu preparo físico me ajuda muito.GN - Com relação à parte física, há também uma grande preocupação com as sequelas futuras do lutador. Te preocupa isso?
Pezão -
Olha, esse é um dos esportes mais seguros que tem, porque a gente passa por uma bateria de exames antes para saber se está apto a lutar. A gente faz ressonância magnética, exame de sangue, de hepatite, HIV. Na semana da luta, o médico vem nos avaliar para saber se não há nenhuma fratura. Quando você sai do cage já tem um pessoal acompanhando, para avaliar novamente. O UFC nos dá um seguro de saúde que nos permite está sempre sendo acompahado por médicos. Então, eu acho que é um dos esportes mais seguros. Perigo sempre tem, mas acho que muito pequeno.GN - Não é o que parece para quem está do outro lado da tela. Imagino que a sua esposa deva sofrer bastante!
Pezão -
(risos) É verdade. Mas eu sempre digo que os treinamentos são mais cansativos, mais pesados do que a luta em si. O que machuca muito é o treino. Por dia, são duas ou três horas de treino pesado, de manhã e de noite, de segunda a sábado. A luta não. São alguns minutos e acaba.GN – Essa luta certamente mudou sua posição no ranking. Como fica agora?
Pezão
- Eu antes ocupava a oitava posição no ranking do Sherdog; agora eu estou em quinto. E no ranking do UFC passei para o quarto lugar.GN – O que isso muda na sua carreira? Lutar pelo UFC tem um gosto diferente e muda a sua carreira também, não é?
Pezão –
É verdade. Tem sim um outro gosto especial. E isso muda muito a carreira da gente. Lutar pelo UFC te traz muito mais respeito entre os outros atletas, que passam a te tratar de uma forma diferente. A mídia te vê de uma forma diferente também. E isso impulsiona, porque você sempre procura querer treinar cada vez mais, para conquistar mais uma posição, subir no ranking. Isso dá mais vontade de querer melhorar seu nível profissional, cada vez mais.GN – O que também dá mais vontade de lutar são as provocações antes da luta. É um combustível extra, não é? Isso já faz parte do jogo de vocês ou realmente existe essa rivalidade longe da mídia e fora do octágono?
Pezã
o
–
Não, muitas vezes não existe. Te dou vários exemplos de atletas que são mais profissionais, técnicos, e não precisam dessas provocações, que vão lá, fazem sua luta, e pronto. O Julio do Santos, o Cain Velasquez, o Minotauro são alguns exemplos. Esses não precisam provocar. Não têm cara feia. Mas tem atletas como o Alistair Overeen e o Chael Sonnen que já gostam. Isso muda de atleta para atleta. Mas fica ali dentro mesmo. Não tem rivalidade. Às vezes, acontece de alguns terem rivalidade porque já treinaram e competiram juntos. Mas nada disso é pessoal. Tudo é profissional.GN – A partir de agora, o que você planeja para a sua carreira? Já pensa no próximo adversário?
Pezão –
Primeiro eu estou pensando em curtir minha família, em descansar, e curtir essa fase, essa vitória, e tudo que vem acontecendo na minha vida. Mas, com certeza, a gente está sempre pensando no que pode vir pelo futuro. O UFC ainda não definiu nada, mas acho que está muito cedo ainda. O que tenho que fazer é, depois dessa semana, voltar a treinar, me preparar e estar bem, fisicamente e mentalmente, para quando eles me derem o próximo adversário eu estar apto a fazer uma boa luta. Se eles acharem que eu mereço o título, eu vou lutar pelo título. Se eles quiserem me dar outra luta antes, também não tem problema.GN – Mas se você fosse escolher um adversário, quem seria?
Pezão –
Ah, com certeza o Cain Velasquez. Pela revanche, por eu ter treinado bastante para essa luta, mas não ter conseguido lutar direito. Nada pessoal, apenas porque ele é o número 1 da categoria e eu quero ter a oportunidade de estar enfrentando os melhores. Mas, não depende de mim.GN – E se você fosse escolher um adversário brasileiro, quem seria?
Pezão –
Difícil. A gente nunca quer enfrentar outro brasileiro. A maioria dos lutadores são amigos. O Minotauro é meu padrinho. Eu jamais lutaria com ele. Com o Cigano eu só lutaria se fosse numa ocasião de disputar título. Mas tem outros. Tem o Farbicio Werdum, o Gabriel Napao que, se o UFC fechasse lutas, com certeza a gente iria lá e faria a luta, e depois sairíamos juntos para comer uma pizza.GN – Quem é, na atualidade, o melhor lutador do mundo para você?
Pezão –
Olha, eu sou suspeito em falar isso. Para mim é o Minotauro. Sou muito fã dele, como lutador e como pessoa.GN – Todos falam que os lutadores de MMA são pitbulls na arena e muito dóceis em casa. Isso é verdade? Como é o Pezao em casa?
Pezão –
Ah, eu sou uma moça em casa (risos). Eu tenho duas filhas maravilhosas. A Anne, de 13 anos, e a Aysha, de quatro anos. A gente não tem como ser durão com duas filhas em casa. Adoro ficar com elas, ficar na frente de casa brincando com elas. Eu viro uma criança perto delas. Adoro ir pra Disney, e não tem como não virar criança naquele lugar. Tento ser um bom pai, tento ser um bom marido, não sou perfeito, mas procuro dar o meu melhor sempre.GN – A sua esposa Rosário certamente sofre muito durante as suas lutas.
Pezão –
Ah, sofre bastante. Começa a sofrer antes, com a preparação, por causa da dieta, da perda de peso, do treinamento cansativo, que deixa a gente um pouco estressado, muito cansado. E, na hora da luta, ela já nem assiste mais. Ela fica rezando, com a mãe dela, fazendo corrente de oração, e só depois que acaba a luta ela corre para ver o resultado e assiste o replay.GN – Para finalizar, fale da vitória sobre o Overeen. Apesar de não ser a luta principal do card, o seu combate foi o que mais se destacou pela forma como você finalizou. Fale um pouco sobre essa luta. O que passa na cabeça do lutador naquele momento de finalização?
Pezão –
Foi muito bom porque foi o resultado de um trabalho muito árduo. Foram dois meses de treino. A gente montou uma estratégia e essa estratégia foi quase 100% usada. No primeiro round, a gente combinou, nos treinos e no vestiário, que era para sentir o Overeen. Se movimentar, se defender mais do que atacar. Até mesmo porque ele é um ótimo striker; ele já foi campeão do K-1 (variação do kickboxing). E só os melhores vencem nesse campeonato. Então, eu consegui fazer o meu jogo no primeiro round. Consegui usar minha estratégia. No segundo round, deu um pouco errado, porque ele conseguiu me colocar pra baixo, mas daí eu tinha treinado bastante para me defender por baixo. Ali, eu mexi um pouco a cabeça dele. Ficava falando no ouvido dele: ‘Vamos, bate forte! Você tá batendo muito fraco’. E ele ficava nervoso e queria bater mais. Porque a gente sabia que se a luta passasse para o terceiro round, ele viria cansado, porque ele pesa 113 quilos, é muita massa muscular e a gente sabia que ele não ia ter resitência física. E, no terceiro round, o meu corner, o Katel, falou: ‘Agora acabou a luta dele. Agora é o seu momento, a gente chegou aonde queria’. E ali eu botei o meu coração na luva e parti para cima dele. Pra mim, foi maravilhoso ver ele caindo, porque muita gente não acreditava no nocaute da minha parte. Muita gente apostava que eu podia ganhar, mas não finalizar em pé, como eu fiz. Mas como eu tinha postado um dia antes no Twitter, o impossível não existe. Então, foi maravilhoso também poder desabafar pela falta de respeito dele, com as coisas que ele tinha falado antes da luta, com as provocações. Foi muito bom mandar ele se levantar e mandar ele me respeitar. Eu me senti com a alma lavada!
