Infelizmente, não é incomum ver notícias atrozes sobre o terrorismo quase que diariamente. Fica cada vez pior. Há alguns meses, uma onda de ataques exibia, em vídeo, prisioneiros de grupos extremistas sendo decapitados, incluindo americanos e pessoas de outros países ocidentais; vemos em jornais, quase que diariamente, relatos de homens, mulheres e crianças-bombas se detonando em locais públicos, incluindo uma menina de 10 anos que fez parte de um massacre ocorrido na Nigéria.
Junto a isso, vivenciamos o ataque à revista francesa “Charlie Hebdo”, no dia 7 de janeiro, em Paris, no qual 17 pessoas, incluindo os cartunistas do jornal satírico, foram mortas por terroristas.
Além de se tratar de mais um massacre que fez novas vítimas do radicalismo religioso, algo que infelizmente não deve parar tão cedo, o alvo desta vez foi também um dos fundamentos do pensamento moderno, a liberdade de expressão, algo muito valioso a qualquer democracia, regime que, aliás, tem as raízes na França.
“Nesse momento de comoção do mundo ocidental, devemos fazer reflexões mais amplas e profundas sobre a gravidade e a natureza da tragédia francesa, e como ela afeta todas as sociedades, sempre dependentes da liberdade para funcionar de maneira saudável”, disse o editorial do jornal “O Globo”, no dia 9.
Por mais que o semanário satírico fosse desrespeitoso com todas as religiões, blasfematório, mal-educado, sem nenhuma preocupação em ser politicamente correto, usar a justificativa do “quem fala o que quer ouve o que não quer” para explicar, da forma mais tênue que seja, ataques às liberdades de expressão em geral e de imprensa, é repetir, de certa forma, os caminhos que terminaram no massacre da última semana. É justificar os ataques a qualquer forma de liberdade.
Embora seja uma revista satírica, “Charlie Hebdo” simboliza o que há de mais importante na cultura da democracia, algo que é tão tradicional aos francesas como o “Champagne”, que se fundamenta no texto atribuído a Voltaire (1694-1778), que diz: “Eu desaprovo o que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”. O choque do assassinato da última semana é algo que o tempo deverá cicatrizar. Mas o significado dessa barbárie, que acabou com a vida daqueles que defendiam suas ideias, é algo que jamais poderá ser esquecido.
Foi um crime contra a democracia, regime que muitos povos do mundo, como esses que vemos diariamente como vítimas de atentados, ainda não experimentaram.

